Antigamente, era ponto assente que as “novidades” vinham do Algarve.
As “novidades” eram aquelas primeiras frutas e legumes que chegavam às praças e mercados, aparecidas no início da estação, e que tanto gosto nos dava comer depois de meses em que não existiam à venda (Agora, como toda a gente sabe, há sempre de tudo todo o ano, haja ele dinheiro, claro...)
O tempo forte das “novidades” era a Primavera – eram as ervilhas, as favas, os figos, as meloas e mais um ror de coisas. Beneficiando do característico clima ameno do sul, chegavam as frutas e legumes que o centro e o norte só conseguiam pôr no mercado algum tempo mais tarde. O Algarve também era famoso por ser um dos grandes centros produtores do figo, da amêndoa e da alfarroba. As amendoeiras em flor eram quadro típico da zona e não se resumiam a uma mera lenda mourisca. Mas o Algarve também era terra de belas e saborosas laranjas. Recordo com saudade, em tempos que já lá vão, as primeiras viagens que fiz para o Algarve com a Ana, de comboio, para irmos lá passar a Páscoa. Depois de Faro, a gente abria a janela, punha a cabeça de fora e aspirava aquele odor maravilhoso e inconfundível das laranjeiras em flor vindo dos inúmeros pomares. Simplesmente magnifico.
Mas o Algarve não vivia só da terra. O atum, o polvo, a sardinha e diversas outras espécies de peixes eram produtos muito importantes na economia algarvia. As conserveiras chegaram a ser líder da industria local.
Este Algarve, que tenho estado para aqui a falar, já não existe.
No início dos anos sessenta uma nova indústria desabrochou em terras algarvias – o turismo.
Passado pouco mais de quarenta anos podemos afirmar que esta industria mudou quase radicalmente o Al-Gharb e as suas gentes.
O peso da agricultura e da pesca descresceu fortemente a favor do turismo e do comércio complementar a esta actividade. Perderam-se milhares de laranjeiras, amendoeiras, alfarrobeiras e figueiras. Algumas variedades de optimas frutas desapareceram, como as meloas “ognas” (não sei se é assim que se escreve...), com um sabor digno dos deuses do Olimpo, segundo os “entendidos” por não terem procura nos mercados europeus para onde eram exportadas. Nota: esta do desaparecimento das meloas “ognas” não perdoo a ninguém. Porra, é que eram mesmo divinas!
Com a chegada dos turistas, quase toda a gente, em maior ou menor escala, procurou tirar proveito deste maná que tinha caído do céu repentinamente. Assim, mais importante que cuidar das laranjeiras ou cultivar melões ou feijão verde para venda, passou a ser alugar a própria casa ou parte dela, para férias, nos quatro meses de Verão. Quartos, anexos, arrecadações - algumas destas habitações, em más condições, nem sanitários possuíam -, tudo servia para alugar e fazer dinheiro fácil, tal a procura, quase sempre pouco exigente dado o elevado preço dos hotéis da zona e o número restrito de parques de campismo. E com a procura a subir de ano para ano, o preço do aluguer começou a subir exponencialmente em cada Verão que passava.
O betão que invadiu a paisagem algarvia alterou completamente a paisagem, e não só, de toda a orla costeira. Com algumas excepções, o equilíbrio da natureza foi completamente destabilizado e hoje já se fazem sentir as consequências dalguns dos graves danos cometidos.
Em busca de água, o seco Al-Gharb foi furado um pouco por todo lado tornando-se no maior “coador” existente em Portugal. Águas salgadas e insalubres invadiram muitos lugares, inutilizando-os, sem serventia sequer para a agricultura. Os cursos naturais de água foram alterados e, no inverno, já têm acontecido algumas situações dramáticas. Muitas zonas de dunas e de arriba estão em perigo perante a acção inconsciente do homem. Em virtude da inexistência ou do deficiente saneamento básico, muitas zonas balneares algarvias estão a ficar progressivamente poluídas ainda que a constatação de tal facto – se nada se fizer - só seja visível daqui a uns anos.
Enfim, com a chegada do turismo ao Algarve, uns mais outros menos, mas toda a gente pareceu apostada em retirar os mais rápidos e fáceis benefícios da situação... esquecendo, muitas vezes, que nem sempre o que é fácil e rápido se revela o mais adequado a médio e longo prazo.
A ver vamos... Pode ser que algum D. Sebastião apareça...
Não só no Algarve se sente estas alterações, infelizmente elas ocorrerm um pouco por toda o lado! Beijinhos Ana e Vmar, um excelente dia para os dois!
Afixado por: Maria Branco em agosto 10, 2004 11:23 AMCom todo esse processo evolutivo de que está a ser alvo a região algarvia e face aos últimos incêndios florestais de que foi alvo, qualquer dia, figos, só os comem aqueles que tiverem figueiras plantadas no quintal. Mas caro amigo não se preocupe que parte das zonas ardidas vão
também elas ser transformadas em aldeamentos turísticos com enormes piscinas oceânicas, campos de golfe e cortes de ténis.
Para mim que tenho família algarvia, o pior foi o que fez às pessoas. Aos sues valores, ao seu modo de vida, à sua concepção de bem-estar.
Raiando o rídiculo é frequente verem-se algarvios de classe média barrigudos, de camisa desabotoada, óculos escuros 'dos caros' e cordão de ouro bebendo café com leite e uísque em pleno Agosto!
Parece que vão tomando juízo...
Sei que são boas pessoa, sou familiar de alguns e amigos de muitos.
Quanto ao desaparecimento da meloa... Pá! se as pessoas pagarem as meloas por um preço que justifique o seu cultivo já se venderiam menos terrenos para o imobiliário.
Porque, oh Vítor, o algarvio de que falas passava muito mal.
Já provaste as papas de xerém? As autênticas? Sem ameijoas nem nada dessas coisas?
Pois é... arghh... alimentaram e nutriram muitos algarvios que hoje têm 40, 50 e mais anos... Se calhar preferem um bom bife...
A tua síntese caro Vítor é demolidora...infelizmente e, sentimo-nos impotentes perante os factos...será mais fácil acreditar em Deus que num Algarve sustentado...qualquer dia constroi-se dentro de água...enfim.Ainda é possível encontrar uns resquícios do antigamente...mas mt pouco.
Um abraço do Morfeu
A evolução da espécie humana, tem dessas coisas.
Troca-se o pão pelo dinheiro, para depois ir comprar o pão mais caro.
Esse Algarve de que falas também o conheci. A viagem interminável de carro (nunca conseguirei compreender como é que a minha mãe punha tanta coisa naquele carro, perante o exaspero do meu pai, e ainda lá cabíamos 4 ou 5 pessoas), a passagem do Alentejo (o carro a aquecer), a entrada no Caldeirão (os furos), a passagem pelo Barranco do Velho :( e aquela excitação de já nos cheirar a Algarve. A espreita constante para saber quem era o primeiro a ver o mar (lembras-te...). O almoço em Faro. A chegada a Tavira ao fim de um dia estafante mas cheio. E depois a praia, a armação, o Barril (muito antes das Pedras)... desculpa tanto espaço mas as saudades são muitas desse tempo, do meu Algarve que não é este de agora.
Afixado por: ognid em agosto 10, 2004 11:15 PM